EDUARDO SOUZA

As entrevistas desta seção foram realizadas para dissertação de mestrado de Ramiro Quaresma da Silva, idealizador e curador do site, para o Programa de Pós-graduação em Artes (PPGArtes) do Instituto de Ciências da Arte (ICA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), intitulada “O site cinematecaparaense.org e a preservação virtual do patrimônio audiovisual: uma cartografia de vivências cinematográficas”.

 

ENTREVISTA COM EDUARDO SOUZA – AGOSTO 2014 – via e-mail!

 

Seu nome completo, local e data de nascimento.

Eduardo Augusto Azevedo Rodrigues de Souza / Belém-Pa / 07/07/1977.

 

Fale sobre sua formação teórica, técnica e prática em cinema.

Não fiz curso universitário de cinema, comecei minha trajetória no audiovisual por impulso e curiosidade própria. Meu interesse inicial era na área de fotografia, onde iniciei meus primeiros trabalhos. Aos poucos comecei a estudar cinema através de livros e amigos que trabalhavam na área, e me interessei por roteiro e direção de fotografia, daí comecei a desenvolver projetos pessoais e fui realizando pequenos vídeos experimentais. Hoje sou diretor de uma produtora que desenvolve inúmeros projetos audiovisuais, em especial documentários, curtas metragens e vídeos para web.

 

Você já visitou, pesquisou ou assistiu filmes em uma cinemateca ou arquivo de filmes?

Sim. Atualmente desenvolvo um projeto que pretende resgatar a história do cinema em Belém, e este projeto me levou a inúmeras cinematecas no Brasil e na Europa, onde tive acesso a imagens raríssimas de Belém na virada do século XIX para o XX.

 

Quais suas principais referências na criação cinematográfica? Alguma do estado do Pará?

Minhas referências são muitas, na área do documentário me identifico muito com as propostas de Eduardo Coutinho, principalmente no que diz respeito à relação do diretor com seus entrevistados, buscando sempre aprofundar ao máximo esta relação de forma a romper a frieza deste ritual. Outro é o Ken Burns que faz um trabalho incrível com fotografia, texto e desenho de som. Seus trabalhos são realmente inspiradores para produções independentes e sem muitos recursos, como é o caso de quem trabalha com isso no Brasil, e em especial na Amazônia. Na área do cinema de ficção gosto de muita gente, mas destacaria os trabalhos de Wim Wenders, no que diz respeito à sensibilidade poética e humana de seus personagens. E Francis Ford Coppola por sua irremediável competência como diretor e a profunda carga dramática de seus filmes, tanto documentais como ficcionais.

 

Quais foram suas realizações, e também participações em produções, em cinema e audiovisual? E no momento atual?

Participei de muitos filmes, assim como desenvolvi muitos projetos pessoais. Dentre minhas principais realizações estão os documentários: Rituais e Festas de Quilombo: documentário sobre antigas tradições quilombolas do Pará. Carimbó: documentário sobre mais de 200 anos de história da maior expressão musical do estado do Pará. Nação do Futebol: documentário sobre futebol indígena para a Copa do Mundo. Atualmente estou finalizando o documentário “Olhos d’Água”, filme que contará a história do cinema e em especial do pré-cinema em Belém.

Quais os principais festivais e mostras que já participou?

Mostra de Cinema da Amazônia (Paris / Berlim, Munique, Frankfurt, Colônia, Hannover / Lisboa e Coimbra); A Volta ao Mundo em 14 Filmes (Berlim); Cineamazônia (Caiena)

 

Onde estão guardados seus filmes, material bruto e cópia final? Onde os pesquisadores podem encontrá-los?

Meus filmes estão todos guardados em formato digital (HD) em minha própria produtora. Alguns foram distribuídos para instituições educativas e culturais como escolas, institutos e bibliotecas públicas. Podem ser encontrados na biblioteca nacional, na cinemateca brasileira, no Instituto de Artes do Pará.

 

Como você observa o cinema e o audiovisual paraense contemporâneos?

Em profundo avanço. Acredito que nos últimos dez anos conseguimos realizar o que não tinha sido feito desde que o cinema chegou por aqui há mais de cem anos. Estão surgindo cada vez mais grupos culturais e produtoras independentes com foco no audiovisual com conteúdo amazônico, a qualidade dos projetos também estão evoluindo, e acredito que em breve a cena audiovisual amazônica estará disputando espaço no cenário nacional. Minha única crítica é na forma como os produtores locais trabalham a divulgação e distribuição dessas produções, que são paraticamente inexistentes. Produz-se muito e cada vez com mais qualidade, mas os filmes não conseguem ganhar espaço e visibilidade. Precisamos avançar nesta área para formar público e consequentemente fazer com que o cinema local saia do plano do experimentalismo e entre em um nível mais profissional e mercadológico.

 

Como você financiou seus projetos em cinema e qual sua opinião sobre os editais e fontes de financiamento públicas atuais.

No início fazia tudo em parceria com amigos e financiava tudo com recursos próprios. Aos poucos começamos a trabalhar com leis de incentivo e atualmente só conseguimos realizar os projetos dessa forma, tendo em vista a falta de apoio e de uma política voltada para o audiovisual regional. Alguns editais até funcionam de forma positiva e funcional, mas a grande maioria está comprometida com medalhões comerciais da cultura brasileira e com pouquíssimo espaço para projetos independentes. Os fundos de cultura são paraticamente inacessíveis e a decisão dos projetos sob as leis de incentivo estão na mão do marketing das grandes empresas. As leis de incentivo locais (Lei Semear e Lei Tó Teixeira) estão muito longe de ser uma coisa séria, pois é contraditória em sua própria legislação. Então no geral, acredito que nesta área de financiamento ainda precisamos avançar, e muito.

 

Sua opinião sobre a substituição da película (filme) pelo suporte digital para captação e projeção de cinema.

Sou totalmente a favor, pois além de baratear uma arte cara por excelência como o cinema, também abre espaço para realizadores que de outra forma nunca fariam nada se não fosse assim. Os problemas de armazenamento sempre existiram e nunca foram devidamente resolvidos, desde a película que era inflamável e com pouca durabilidade em certas condições climáticas, assim como o meio digital que é bem vulnerável também. Em termos de qualidade acho que tudo se adequou aos novos meios de comunicação e não perdemos muito com isso, tendo em vista inclusive as novas tecnologias que paraticamente se igualaram em definição e qualidade da película. No geral acredito que são mudanças naturais e que em breve teremos uma nova revolução cinematográfica que gerará esta mesma discussão.

 

Qual sua opinião sobre a web como forma de difusão do cinema? Você tem experiências de compartilhamento de conteúdo autoral nesse meio?

Acho fantástico, a maior revolução cultural que já aconteceu no mundo até hoje. Todo cidadão em qualquer lugar do mundo tem acesso a qualquer conteúdo. Tudo está disponível e acessível a todos. É a verdadeira democratização cultural. Porém como toda grande mudança, ela também traz seus problemas, mas isso é um fator condicionante de quem acessa ou produz determinados conteúdos. Em termos gerais acho que o resultado foi enormemente positivo e facilitou muito a difusão de artistas que nunca teriam seus trabalhos acessados ou simplesmente divulgados para o grande público.

 

Entrevista realizada com Eduardo Souza, no dia 20/08/2014

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s