EDWALDO MARTINS

Não sei precisar exatamente o ano em que entrei na TV Marajoara, mas acho que foi por volta de 1963. Comecei na televisão fazendo redação. Eu redigia um programa local de notícias chamado “Primeira Edição”. Lembro que ele era patrocinado por uma pessoa que viria a ter muita importância na televisão paraense. Era patrocinado pelas Lojas RM, do Romulo Maiorana. Eu redigia, e quem apresentava era a Estelinha Assis (É a mesma Estelinha Barbosa ?)ou o Costa Filho, que até hoje atua em rádio.
Eu comecei como apresentador de TV como a maioria das pessoas que chega a uma atividade artística: substituindo alguém. Me lembro que pelo jornal “A Província do Pará”, onde eu trabalhava, eu coordenava o concurso de Miss Pará, que naquela época era a sensação. Era o ano em que a Ieda Maria Vargas tinha sido Miss Universo, teve a Marta Rocha em 54, ou seja, tinha realmente muito apelo. Constava da programação do concurso a apresentação semanal, se não me engano, aos sábados à tarde, de um programa de TV chamado “Miss Pará”. A gente entrevistava as candidatas, dava notícias sobre o concurso e o apresentador normalmente era o Abílio Couceiro.
Num belo dia, o Abílio não pôde ir, teve algum problema. Nessa altura, o diretor da TV Marajoara era o Péricles Leal. E ele me disse que eu tinha que apresentar o programa, porque nenhuma outra pessoa podia apresentá-lo pelo fato de que ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo no Miss Pará. Eu tive que apresentar, e fui muito nervoso porque eu nunca tinha encarado televisão. Ainda mais numa época em que a TV era realmente ao vivo, direto, a mancada que tivesse iria para o ar.
Cheguei a fazer vários programas. Junto com o Acyr Castro, por exemplo, fiz o “Tele Cine”, um programa semanal sobre cinema. Fiz também “Quatro Ases e Uma Dama”. Eram quatro apresentadores que se reuniam para entrevistar uma mulher. Trabalhavam nesse programa, além de mim, o José Maia, o Orlando Carneiro, o Ivo Amaral e o Abílio Couceiro. Participei também de um programa chamado “Só Às Quintas”, que era na linha de shows e variedades. Nessa altura, eu tinha na “Província” uma página em que eu só tratava de mulheres. Então, minha participação no “Só Às Quintas” era dar notícias sobre mulheres. Fiz também um programa chamado “Edwaldo Martins”, que eu inicialmente apresentei sozinho e depois junto com a Sônia Ohana. Ela era, na época, uma das moças mais badaladas de Belém. Foi concorrente a Rainha do Carnaval, foi Miss Pará e chegou a ser Miss Brasil número 3. Era uma moça muito conhecida e muito simpática, e apresentou esse programa junto comigo por muito tempo. E tive também um programa chamado “Weekend”, que era aos sábados.

Lembro que um dos programas de maior repercussão da TV Marajoara era o “Pierre Show”, que eu diria, com sinceridade, que foi o “Fantástico” do seu tempo. Ninguém passava o domingo sem vê-lo. Era um programa de variedades, quase sempre entrevistando figuras da sociedade. O Pierre Beltrand, que era o Ubiratan Aguiar, era empresário de artistas e trazia vários que se apresentavam nos clubes de Belém para vir ao “Pierre Show”. Passaram pelo programa artistas como Elis Regina e Roberto Carlos. Cheguei a apresentar o “Pierre Show” interinamente algumas vezes. Quando o Ubiratan viajava era o Ivo Amaral que assumia, mas às vezes ele fazia cobertura de futebol e eu tinha que apresentar o programa.
O “Pierre Show” era um programa obrigatório, assim como o do Roberto Jares, que se chamava “Domingo Depois das Nove”. Tinha programa de entrevistas do Abílio Couceiro, do Joaquim Antunes e eram realmente os grandes cartazes. Mas é bom frisar que naquele tempo o que se dizia ia para o ar. Era tudo ao vivo, e a Marajoara ousou e chegou a fazer novelas. Lembro, por exemplo, que a TV fez uma novela baseada em uma peça da Broadway de muito sucesso chamada “Chá de Simpatia”. Era a primeira vez, inclusive, que se tratava no teatro e na televisão de homossexualismo. Talvez a memória me traia, mas, se não me engano, eram a Nilza Maria e o Daniel Carvalho os protagonistas. Eles eram, naquela altura, as grandes figuras da telenovela paraense. Além deles, tinha também a Mendara Mariani, o Cláudio Barradas, o Lindolfo Pastana, a Carmem Eunice Barradas. Quem produzia os programas era o Raymundo Mário Sobral e o Valdir Sarubi, que era também um grande artista plástico.
Desse tempo, lembro muito bem de uma novela chamada “O Poço dos Anseios Perdidos”, de autoria do Carlos Roque. Lembro como se fosse hoje de um detalhe: eu estava na televisão, quando nesta novela, por força de um diálogo, se chamava a palavra “merda”. Isso foi um escândalo. Muitas pessoas telefonaram para a TV Marajoara para reclamar que a família paraense estava agredida porque, no diálogo da novela, tinha se ouvido um palavrão.
Naquela época, era um pouco heróico o trabalho em televisão, por causa das dificuldades naturais da cidade. Lembro, inclusive, que quando novelas tinham seqüências com sangue, se corria num armazém chamado “O Sol Nasce Para Todos” para comprar açaí. Era com açaí que fazíamos o sangue cenográfico. Não dava para perceber na tela porque as TVs eram em preto e branco.
Passei por várias situações engraçadas. Numa delas, eu estava apresentando o “Tele Cine” no momento em que deu um curto circuito no estúdio. Noutra, desci de um táxi em frente à TV Marajoara e a porta do táxi veio em cima do meu dedo. Perdi a unha, minha mão sangrou e, ainda assim tive que apresentar programa. Isso foi bobagem, mas houve muitas coisas mais. Teve o cavalo que fez cocô no estúdio em cena, teve uma pessoa que cantava quando a dentadura pulou fora da boca dela. Outra: sempre quando se esquecia o diálogo numa novela, tinha que se fazer o plano americano e uma pessoa se ajoelhava para mostrar o script aos atores. Lembro também de uma cena em que o Daniel Carvalho fazia um morto e uma mosca percorreu o rosto dele.
O Habib Fraiha Neto apresentava um programa aos domingos chamado “A Semana em Destaque”. Lembro que ele entregava o Troféu Carajás às personalidades que se destacaram durante a semana anterior. Belém não tinha tantos eventos que justificassem a premiação de três ou quatro pessoas por semana. A gente ria muito porque acabavam se repetindo os homenageados. E o Habib foi, das pessoas que eu conheci na televisão, a mais nervosa antes de entrar em cena.
O Roberto Jares fez no “Domingo Depois das Nove” várias entrevistas polêmicas. Lembro de uma que ele fez com o Armando Carneiro que acho que foi o motivo para tirarem o programa do ar abruptamente. Ele perguntou ao Armando: “Você é comunista?”. Naquele tempo, era um acinte perguntar isso para alguém.
Fizemos muitos programas de auditório utilizando o auditório da Rádio Marajoara, que hoje é o prédio onde fica o Banco Real na avenida Nazaré. Tinha o “MM em Destaque”, com a Miriam Matos, que veio a se casar com o Abílio Couceiro. Tinha um programa mais ou menos parecido com o “Show do Milhão” de hoje, chamado “New York é o Limite”, se não me engano. Esse auditório também servia de palco para peças e espetáculos na época do Círio de Nazaré e também numa época em que o Teatro da Paz ficou fechado.
Uma das grandes atrizes que passou por lá foi a Tônia Carrero. Lembro como se fosse hoje que, ao iniciar o espetáculo “Esses Maridos”, caiu uma chuva torrencial. A chuva fez uma barulheira no telhado, e ela não pôde continuar o espetáculo. Ela criticou muito por causa disso o governador da época, isso em 1963.
Uma artista que teve muitas participações no início da TV paraense foi a cantora Jane Duboc, que na época era Jane Moreira. Lembro que ela morava ao lado da televisão. E às vezes, quando um convidado de algum programa faltava, a Jane era sempre lembrada para tocar violão e cantar. Nessa época, ela também era campeã em várias modalidades esportivas. Cheguei a levá-la ao meu programa para contar os feitos dela em tênis, vôlei, natação… Ela tinha conquistado várias medalhas, e só depois se voltou exclusivamente para a música.
Naquele tempo, surgiram nomes que hoje tem conhecimento nacional. Além da Jane Duboc, surgiu o Sebastião Tapajós, o Mano Rodrigues, que chegou a fazer carreira em São Paulo, a Clara Pinto, que fazia a linha de coro do “Pierre Show” e o Paulo Altman, que também dançava balé em programas de televisão.
Daquela época, lembro muito bem do Lucinerges Couto. Ele tomava conta do arquivo da televisão e ele, inclusive, era a verdadeira memória da televisão. Tudo o que você quisesse saber da televisão em Belém, o Lucinerges sabia. Infelizmente ele já faleceu. Lembro também dos suítes como o Wilson Uchôa e o Waterloo Assis, que acabou vindo a ser diretor da TV Marajoara. Lembro também da esposa dele, a Estelinha Assis( ou Estelinha Barbosa ?), que apresentava programas e fazia comerciais. Naquele tempo, as apresentadoras de comerciais tinham que decorar os textos e apresentar os produtos ao vivo. Teve um episódio engraçado com a Virgínia de Moraes. Ela fazia os comerciais de uma boutique chamada Rafiné. E eu sempre a via lendo o texto em voz alta para decorar. Até que um dia eu disse a ela que o nome da boutique era horrível, e que Rafiné era nome de boate. Ela pareceu não dar muita importância e entrou no estúdio. Até que, depois de apresentar os produtos, ela falou: “Tudo isso você encontra na boate Rafiné”. Ela saiu de lá com ódio de mim, dizendo que eu tinha feito com que ela errasse o texto.
Na parte de comerciais tinha também uma moça chamada Deolinda Oliveira, que se tornou famosa pelas mãos, que além de enormes eram bastante expressivas. E a Ísis de Oliveira, a Candinha Lima, e a Carmem Eunice Barradas, que era uma mulher de dez instrumentos. Até cantar ela cantava, pois tinha vindo do teatro da Rádio Clube. E esse foi um detalhe curioso: em termos de dramaturgia, a televisão absorveu muita gente do rádio.
Uma outra coisa que eu fiz na televisão, e muito mal, foram as transmissões do concurso de Miss Universo. O concurso passava em inglês e eu tentava descrever em off o que acontecia para os telespectadores. Eu também apresentei filmes: antes da exibição, eu dava a sinopse do filme, falava do elenco etc.
A chegada do videotape na TV paraense deve ter tido o mesmo impacto da chegada da voz ao cinema. Quando os filmes deixaram de ser mudos, muita gente teve de sair de cena porque não tinha voz. Foi um transtorno: muitos atores e atrizes ficaram desempregados. Aqui não foi exatamente isso. O que ocorreu foi que começaram as comparações com os programas vindos de fora, que eram gravados em tape e tinham melhores patrocinadores. Além do mais, tinham nomes famosos. Quem via um programa feito aqui, via caras conhecidas que não tinham reconhecimento nacional. Já nos programas em tape vindo de outros Estados, você via a Elis Regina, o Jair Rodrigues, o Cauby Peixoto, a Ângela Maria, a Hebe Camargo, que eram nomes de sucesso. E esses programas tinham uma realização primorosa para a época, primeiro pelos recursos técnicos, e segundo, pelos patrocinadores envolvidos.
Então começaram as comparações, e, além disso, os horários começaram a ser preenchidos por esses programas. Até chegarmos no ponto em que está hoje, em que temos tão somente nossos telejornais como produção local. Acho que a nossa televisão deveria ter alguns programas ao vivo além dos jornais.
Quando você exerce o jornalismo, você deve ter um pouco de desenvoltura. Você tem que saber chegar às pessoas, saber colher as notícias. A televisão significou para mim um pouco disso. Depois da televisão, cheguei a fazer alguns programas de rádio e me dediquei ao jornalismo. Mas aprendi muito na TV, pois quando se entrevista pessoas na televisão, queira ou não queira, você vai sabendo de coisas. Então, acho que esse trabalho na TV é principalmente informação e desenvoltura. E a dificuldade de se fazer televisão no início me fez aprender muito. Fazer TV naquele tempo, se compararmos com os recursos de hoje, era um ato de heroísmo.

Edwaldo Martins

in Memória da TV Paraense

 

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