“LENDAS AMAZÔNICAS” E A ADAPTAÇÃO DA NARRATIVA MÍTICA PARA O CINEMA

Por Ramiro Quaresma

RESUMO

O filme-série “Lendas amazônicas” (1998), dirigido por Ronaldo Passarinho Filho e Moisés Magalhães, é um documentário dramatizado que em quatro episódios trata de mitos como o Boto, a Matinta Perera, a Cobra Grande e três lendas urbanas da cidade de Belém. Ao adaptar as narrativas míticas amazônicas para o cinema os episódios refletem uma tradição cinematográfica da adaptação de estórias do imaginário popular para o cinema.

Palavras-chave: Lendas amazônicas, cinema paraense, adaptação.

Em 1998 os realizadores paraenses Ronaldo Passarinho e Moisés Magalhães levaram astelas e pra TV por assinatura, em uma parceria com o canal GNT, um roteiro de Ronaldo Passarinho e Lázaro Araújo livremente inspirado na série de livros“Visagens e Assombrações em Belém” de Walcyr Monteiro. Dividido em quatro episódios o projeto utiliza depoimentos de estudiosos, pessoas comuns e dramatizações com atores para contar em linguagem cinematográfica mitos e lendas que fazem parte do imaginário amazônico.

São quatro episódios “O Boto”, “Belém: mitos e mistérios”, “Cobra grande” e “Matinta Perera”, com estruturas semelhantes de condução da narrativa, depoimentos de estudiosos como João de Jesus Paes Loureira, depoimentos de populares com suas estórias de encontros com os mitos nos rios e matas da Amazônia, pequenas dramatizações sem diálogos para ilustrar depoimentos e as dramatização principal que fecha o episódio, sempre com um grande ator de teatro e cinema do estado do Pará como Dira Paes (O Boto), Walter Bandeira e Nilza Maria (Belém: mitos e mistérios), Cacá Carvalho (Matinta Perera) e Rui Guilherme (Cobra Grande). Apenas o espisódio de Walter Bandeira sobre a lenda da Moça do Taxi não é um monologo feito para a câmera e tem características de cinema e não de teatro como os outros.

Para o dicionário HOUAISS (2001), a palavra mitologia vem do grego μυθολογία: “mito”, do grego antigo μυθος (narrativa, relato), e “logia” (estudo), λογία, é o estudo de narrativas. Eles, os mitos, são narrativas que apresentam forte simbologia fatos naturais, históricos ou filosóficos com, passados de através de gerações por meio de contação de histórias, e nos dias de hoje pelo cinema também, baseadas em lendas e tradições para explicar o universo, a criação do mundo, fenômenos naturais, e toda e qualquer outra coisa às quais explicações para mundo desconhecido que nos cerca.

Os arquétipos que surgem nestas narrativas míticas, o herói, o vilão, os deuses,os seres mágicos, são os componentes do chamado inconsciente coletivo criado deste universo mitológico. Conforme Jung o inconsciente coletivo é uma herança psíquica que todo ser humano recebe em sua constituição, como se já tivesse uma disposição para a criação de símbolos.  Os arquétipos correspondem às imagens ancestrais e simbólicas materializadas nas lendas e mitos da humanidade, e constituem o inconsciente coletivo que se revela no indivíduo através dos sonhos, delírios e algumas manifestações de arte (CAMPBELL, 2007).

A Mitologia é utilizada pelo cinema para ir de encontro os anseios da plateia de ver em imagens as narrativas que fazem parte de sua civilização. Narrativas mitológicas nem sempre geram bons filmes porém atiçam sempre a curiosidade do público e tem uma grande possibilidade de distribuição. Funcionam também deforma didática em aulas interdisciplinares visto que o cinema é muito utilizado como recurso pedagógico.

A mitologia grega, por exemplo, deu origem a filmes como “Fúria de titãs”,“Tróia”, “Imortais”, da mitologia nórdica veio a lenda do “Beowulf”, e da germânica “O Golem”, da Bíblia uma série de filmes como “Noé” e “Paixão de Cristo”, pra citar apenas os filmes mais recentes. Adaptações diretas predominam mas as indiretas, quando o mito é reconfigurado como em “Orfeu negro”, também encontram espaço na cultura cinematográfica das adaptações.

Quando em comparação com os mitos amazônicos devemos pensar que a tradição oral passou por transformações devido aos processos de colonização, imigração, meios de comunicação e outros tantos fatores que influenciaram a criação dessa mitologia amazônica, menos carregada de moral e questões existenciais como a mitologia greco-romana e ligada a práxis do caboclo em relação a floresta e rios insondáveis: Como Paes Loureiro se refere a ela:

O real nos coloca diante da objetividade prática de viver. O imaginário nos garante as aventuras de sonhar. Sonhamos antes de conhecer. Imaginamos antes de constatar. Nosso devaneio é incansável, interfere na realidade, poetizando a relação pregnante com essa realidade, o que faz com que, tantas vezes, o imaginário seja mais real do que real. O imaginário confere ao real sentido.Inclusive o do próprio real. Não há real não imaginado (Loureiro, 2007, p. 17).

Arica cultura amazônica foi o tema escolhido para este sopro de ressurgimento do cinema paraense iniciado pelo extinto CRAVA, coletivo criado nos anos 1980 por um grupo de entusiastas de cinema como Januário Guedes, Peter Roland, Sônia Freitas, Anibal Pacha e Miguel Chikaoka, utilizando os equipamentos restante de sua estrutura, os jovens cineastas Moisés Magalhães e Ronaldo Passarinho realiza mesta série de quatro filmes sobre as narrativas míticas da Amazônia, em um filme que mistura documentário e ficção onde uma nova geração de atores e técnicos têm sua primeira experiência cinematográfica. Sobre a cultura amazônica Paes Loureiro, um dos entrevistados do filme, diz:

Uma cultura dinâmica, original e criativa, que revela, interpreta e cria sua realidade. Uma cultura que, através do imaginário, situa o homem numa grandeza proporcional e ultrapassadora da natureza que o circunda. (…) Uma cultura de profundas relações com a natureza, que perdurou, consolidou e fecundou,poeticamente, o imaginário (até o final dos anos 50) destes indivíduos isolados e dispersos às margens dos rios (…) Nesse contexto, isto é, no âmbito dissonante em relação aos cânones urbanos, o homem amazônico, o caboclo, busca desvendar os segredos do seu mundo, recorrendo dominantemente aos mitos e à estetização. (…) Entende-se aqui, por uma cultura amazônica aquela que tem sua origem ou está influenciada em primeira instância, pela cultura do caboclo.(LOUREIRO, 1995: 30, 26 e 27)

Esses jovens cineastas procuraram nestas lendas uma conversão semiótica de narrativas populares sobre esses mitos em narrativa cinematográfica. Para Paes Loureiro(1995 pg. 39) essa conversão se dá no “movimento de uma passagem pela qual as funções se reordenam e se exprimem em uma outra situação cultural. A mudança de qualidade simbólica em uma relação cultural. Na cultura amazônica, a conversão semiótica para o estético, segundo a qual as funções se reordenam e se exprimem pela formação ressimbolizada e sobre a qual recai a contemplação.”

…o imaginário confunde, numa mesma osmose o real e o irreal, o fato e a carência, não só para atribuir à realidade os encantos do imaginário, como para conferir ao imaginário as virtudes da realidade” (MORIN, 251).

A direção é dividida entre Moisés Magalhães e Ronaldo Passarinho. Moisés mais experiente começou a estudar e dirigir cinema no fim dos anos 1980 nos cursos cinematográfico da Casa de Estudos Germânicos e foi o diretor do curta-metragem“Carro dos milagres” (1989) e foi um dos fundadores do CRAVA, movimento coletivo de cinema surgido dessas oficinas da CEG/UFPA. Ronaldo Passarinho, jornalista e crítico de cinema, fez em “Lendas amazônicas” sua estreia no cinema.

A obra “Lendas amazônicas” é um exercício cinematográfico, em uma cidade que muito pouco produzia cinema e seus realizadores possuíam ainda pouco domínio da linguagem cinematográfica e muito menos desenvolvido um estilo.  Segundo Compagnon (1999 – pg. 169) o estilo designa a propriedade do discurso,isto é, a adaptação da expressão a seus fins. Ao optar por um discurso cinematográfico adaptado de narrativas míticas e ancorado nos signos imagético dos depoimentos a obra cinematográfica documental dramatizada não se aproxima de um cinema de autor. Ainda sobre o estilo Compagnon continua “o estilo liga-se a minucias que escaparam ao controle do pintor e que o falsário não pensara em reproduzir”.

Parte dos equipamentos de filmagem do CRAVA (Centro de referência audiovisual na Amazônia) foi utilizado na produção de Lendas, a câmera Arrilfex de 16 milímetros e o gravador de áudio da marca Nagra foram utilizados pela última vez na filmagem deste filme-série documental. O cinema paraense não possui uma tradição documental, desde Líbero Luxardo os “documentários” eram mais para“cine-jornais”, feitos sob encomenda. Porém mesmo sem um domínio de linguagem documental no cinema os realizadores buscaram referências nos documentários históricos. Esta mais para TV que para cinema, visto que foi um canal de TV por assinatura que co-produziu “Lendas”.

De acordo com Nichols é difícil definir documentário (2007: 47):

A definição  de  “documentário”  é sempre relativa e comparativa.Assim como amor adquire significado em comparação com indiferença ou ódio, e cultura adquire significado quando contrastada com barbárie ou caos, o documentário defini-se pelo contraste com filme de ficção ou filme experimental de vanguarda.

            Sem um ambiente cinematográfico propício a realização cinematográfica a equipe do “Lendas” buscou documentar os mitos amazônicos, impor a eles uma imagem de forma objetiva, a matinta é tal qual a descrevem, o boto humanizado veste o fato branco da lenda, a lenda de Plácido é refeita nos detalhes da história oficial da Igreja Católica. E dentro deste ambiente cinematográfico uma figura principal foi deixada de lado, o roteirista. Com roteiro de Ronaldo Passarinho e Lázaro Araújo, ambos jornalistas, tem nas escolhas estéticas e poéticas do roteiro seu grande problema em cinema.

Não podemos deixar de ressaltar o aspecto turístico e promocional do filme-série.Os episódios começam e findam com belas imagens de barcos singrando rios,pescadores, diversidade de alimentos, prédios históricos da cidade de Belém e acidade em movimento em locais turísticos como o Ver-O-Peso, tudo ao som dos acordes do violão tapajônico de Sebastião Tapajós em um videoclipe das belezasa mazônicas. Esse caráter fica bem evidente ao se incluir entre as lendas o episódio em que Plácido encontra a Virgem de Nazaré, que não é uma lenda amazônica com o boto, a matinta e a cobra grande, na intensão de mostrar agrande festa do Círio de Nazaré, principal evento turístico do Estado.

 “…Há nos rios do Pará e Amazonas o ciclo do Boto, golfinho fluvial, de vastíssimo memorial amoroso. O Boto é o conquistador feliz de milhares de moças, o progenitor natural de várias centenas de piás. Esse delfim levanta, nas lonjuras do rio-mar, o renome clássico de sua estirpe.O delfim é um símbolo lúbrico. Desde a antiguidade clássica ele é dedicado a Vênus e aparece, roncando no cio, junto à Deusa resplandecente. Ao cair da noite nada para a terra e se torna homem… vira gente, seduz, atrai para o fundo do rio. (Câmera Cascudo, in Lendas Amazônicas, 1998)

A dramatização de “Lendas amazônicas” se encaixa na narrativa fílmica para dar-lhe verossimilhança, para os cineastas não era suficiente os depoimentos sobre as lendas para que o espectador se envolve-se na trama do roteiro, se fazia portanto dar um corpo para as narrativas, atores para esse faz de conta estabeleça um pacto ficcional com o observador. Sobre o pacto ficcional Eco(1994) diz que é dessa aceitabilidade que o texto ficcional se realiza para o leitor, o qual encontrará verossimilhanças, não verdades, e estará consciente da suspensão de uma relação direta com o seu mundo real.

Os depoimentos do filósofo Benedito Nunes e do poeta João de Jesus Paes Loureiro são o encadeamento acadêmico dessa obra fílmica que mistura o documentário e a dramatização de cenas sobre as lendas amazônicas do Boto, Matinta Pereira,Cobra Grande e outras lendas como do achado da imaginária de Nossa Senhora de Nazaré, do médico-espírito Camilo Salgado e da Moça do Taxi. Segundo Benedito Nunes em seu depoimento para as câmeras dos realizadores “As lendas são relatos fabulosos pondo em ação rios, árvores, imagens, personificam as gentes,produzindo efeitos positivos ou negativos, benefícios ou malefícios…”(Benedito Nunes in LA).

Paes Loureiro em seu depoimento no filme sobre o boto diz que:

“O imaginário amazônico tem uma poética que é universal e reflete sobretudo uma cultura ribeirinha, que estabelece uma relação rica e mágica com o homem, e o rio é sempre quase que uma liturgia em relação espiritual e mágica na regiãoa mazônica, por exemplo, a lenda do boto nada mais é que a epifanização do amor do rio, ou seja é quase como se fosse a transfiguração do rio através do golfinho que o boto, numa forma de amor de eterna busca. ” (J. J. Paes Loureiro in LA)

E mais:

“Há um aspecto da lenda do boto que se mostra universal, por exemplo, o filho do boto ele apresenta o traço dos grandes heróis, ou seja ele é produto de hybris, à semelhança do herói grego ele é filho de uma divindade com uma pessoa humana(…) de certa maneira a figura de Cristo segue o mesmo traço antropológico(…)”(J. J. Paes Loureiro in LA)

Na sequencia dramatizada do filme o ator vestido de  festa de brega na beira do rio o boto-playboy vestido de um impecável paletó e chapéu branco faz suspirar a caboclas ao som do brega de Antônio Rocha “não vou deixar a tristeza em meu caminho” e mira sua escolhida, que seduz e leva pra praia consumar o amor entre o mito e o mulher. Nesta corporificação do boto em galã, visualizamos essa poética do imaginário.

Todos os episódios da série apresentam um sequencia final dramatizada teatral menteonde um narrador narra para a câmera uma história referente ao mito amazônico em destaque, neste d”O Boto”, a atriz Dira Paes encarna uma moça que conta seu caso com o boto. Um monólogo teatral para o espectador, bem ao modo dos nossos contadores de histórias, que encara o mito como fato, não como uma representação. Essa moça não narra o boto como uma desculpa de uma traição ou incesto mas como realidade, o texto dito demonstra uma crença na corporeidade do boto,para ela ele existe e um dia verá o filho brincando com o pai nos rios.

Para Paes Loureiro, em depoimento no filme, a lenda do “o boto subverte a relação social e familiar no interior do estado, ele representa um perdão para aquilo que seria a transgressão que a mãe solteira de ter praticado ou se acasalar como boto (…) mesmo no caso da mulher casada também”. Sendo assim o filme vai no caminho oposto em seu discurso, visando um pacto ficcional com os relatos dos ribeirinhos e não com os “estudiosos”. Para Loureiro sobre a lenda deste episódio “o boto é acima e tudo uma poética da forma dionisíaca de ver o mundo que o amazônida tem, de modo que eu compreendo que esta é uma lenda é unificadora da cultura amazônica, e a mais forte expressão desta nossa poética do imaginário.”

Figuras 1 e 2: Frames do filme Lendas Amazônicas – O Boto, de Moisés Magalhães e Ronaldo Passarinho (1998).

Fonte: DVD do acervo do MIS-PA.

 “Belém…não escapa à fascinação do sobrenatural. Não há menino que deixe de ouvir histórias fantásticas,transmitidas pelas amas, as empregadas domésticas, geralmente pessoas vindas do interior do Estado. Mesmo o impacto de outros valores culturais que hoje se manifestam na cidade…ainda persistem as estórias sobrenaturais na mente do povo.”(Leandro Tocantins in LA)

No episódio “Belém: Mitos e Mistérios”, que aborda as lendas urbanas da moça do táxi, do médico Camilo Salgado e o encontro da imaginária da Virgem de Nazaré que dá origem ao culto ea procissão do Círio.  O médico Camilo Salgado foi abordado através do culto que é feito em seu túmulo no Cemitério da Soledad, onde no dia de finados se acendem velas e fazem pedidos de saúde acreditando em uma intervenção espiritual na cura de males. Uma encenação desse culto foi realizada pra esta representação, um bom momento cinematográfico do filme com movimentos de câmera em travelling e uma fotografia noturna bem realizada feita por Jorge Monclar, diretor de fotografia da série.

O arcebispo de Belém no período do filme Dom Vicente Zico é quem narra a história de Plácido encontrando a imagem da Virgem de Nazaré na beira do igarapé no ligar onde hoje se ergue a Basílica de Nazaré. Plácido é interpretado por Adriano Barroso, em sua primeira aparição no cinema paraense, sem falas apenas como olhares e gestos, Adriano nos dias de hoje é nosso ator e roteirista mais representativo. A narrativa d’A Moça do Taxi é conduzida pelo escritor Walcyr Monteiro, autor da série de livros “Visagens e assombrações de Belém”. A dramatização onde o taxista é interpretado peloator e cantor Walter Bandeira. A veterana atriz Zilda Maria faz a mãe da moçaque depois de falecer atropelada pro um bonde vira uma assombração que pega a condução tarde da noite para ir do cemitério de Santa Isabela até sua casa.

A trilha sonora de toda a série é composta por músicas instrumentais do violonista santareno Sebastião Tapajós e não foi composta originalmente para a série. A música de abertura é “Igapó” de Sebastião Tapajós e voz de Jane Duboc,do CD “Da minha terra” de 1998. Sebastião é a trilha sonora mais utilizada para imagens de cobertura de documentários que tem a Amazônia como assunto onde seu violão mocorongo[1]é tema recorrente. Sobra a música e o imaginário disse Durand:

O imaginário nas suas manifestações mais típicas (sonho, devaneio, rito, mito,narrativa de imaginação, etc.) é portanto alógico relativamente à lógica ocidental, desde Aristóteles até mesmo de Sócrates. Identidade não localizável,tempo não dissimétrico, redundância, metonímia ‘holográfica’, definem uma lógica ‘alternativa’ que, por exemplo, a do silogismo ou da descrição temporal,mas mais próxima, em certos aspectos, da da música. Esta última, como o mito ou devaneio, repousa sobre as transposições simétricas, dos ‘temas’desenvolvidos ou mesmo ‘variados’, um sentido que só se conquista pela redundância (refrão, sonata, fuga, leitmotiv, etc.) persuasiva de um tema. A música, mais que qualquer outra, procede por um assédio de imagens sonoras‘obsessivas’ (DURAND, 1994, p.57).

Dona Cheirosa dá em seu depoimento sobre as ervas e feitiços vendidos em sua barraca no Ver-O-Peso, o tom de humor de sua fala é o grande momento do filme, de descontração perante o clima solene e pretensioso da série como um todo. Suas dicas de ervas para negócio e sexo sempre arrancaram as maiores gargalhadas em exibições. Ele é colocado no filme pela sua potencia humorística, fugindo do tom solene do restante do documentário e mostrando um caminho que talvez devesse ter sido seguido pelo enredo, ao tratar as lendas como História.

Figuras 3 e 4: Frames do filme Lendas Amazônicas – Belém, mitos e mistérios, de Moisés Magalhães e Ronaldo Passarinho (1998).

Fonte: DVD do acervo do MIS-PA.

Em “Cobra Grande” fica evidente nos artistas que realizara messa obra cinematográfica, apesar dos esforços de inserir na edição do filme depoimentos de professores e ribeirinhos, pra dar um corpo de coerência no filme, um distanciamento do universo abordado, a cultura amazônica e seu imaginário. Ao adaptar as lendas para as dramatizações a estética ficou em primeiro plano e o discurso num plano secundário.

“Os portugueses, homens do mar, possuíam a tradição das lendas marítimas, de tritões, sereias animais fabulosos…Cada igarapé, rio,lago, tem sua Mãe e esta só aparece como uma imensa serpente. (A Cobra Grande,ou Boiúna) não tem piedade nem aplaca a fome. Mata e devora quem encontra. Vira as barcas, arrasta os nadantes, estrangula os banhistas apavora a todos. A noite vêem seus dois olhos de fogo, alumiando o escurão” (CASCUDO, in LA)

A câmera ficou a frente do roteiro, a técnica não acompanhou o conteúdo, não fez o trajeto do imaginário, segundo Durand:

Finalmente o imaginário não é outra coisa que este trajeto no qual a representação do objecto se deixa assimilar e modelar pelos imperativos pulsionais do sujeito, e no qual reciprocamente, como magistralmente Piaget mostrou, as representações subjetivas explicam-se ‘pelas acomodações anteriores do sujeito’ ao meio objetivo (DURAND, 1984, p. 38).

Os cineastas não possuindo uma trajetória cinematográfica nem um trajeto antropológico pela Amazônia e suas lendas por um documentário ao estilo televisivo não propõe uma releitura contemporânea do mito e sim uma alegoria. Durand sobre o trajeto antropológico diz o seguinte:

O ‘trajeto antropológico’ é a afirmação, para que um simbolismo possa emergir, que ele deve indissoluvelmente participar – numa espécie de ‘vai e vem contínuo’ – às raízes inatas na representação do sapiens,e, no outro ‘extremo’, às intimações variadas do meio cósmico e social. A lei do ‘trajeto antropológico’, tipo de uma lei sistêmica, mostra bem a complementaridade na formação do imaginário, entre o estatuto das aptidões inatas do sapiens, a repartição dos arquétipos verbais e grandes estruturas‘dominantes’ e seus complementos pedagógicos exigidos pela neotenia humana(DURAND, 1994, p. 59).

Figuras 5 e 6: Frames do filme Lendas Amazônicas – Cobra grande, de Moisés Magalhães e Ronaldo Passarinho (1998).

Fonte: DVD do acervo do MIS-PA.

A cobra-grande surge como um índia estilizada em uma sequencia onde dança com sua cobra e se banha com ela em um igarapé. Essa cena não ilustra nenhum discurso do episódio, é utilizada para cobrir um buraco de dramatizações propostas pelo roteiro entre as entrevistas sonoras. A escolha do mito da cobra-grande, ser gigantesco e terrível, inviabilizava uma dramatização com recursos de computação gráfica ou animação, fugindo da estética naturalista proposta pelo documentário dramatizado.

Episódio mais irregular dos quatro, “Cobra Grande” em nenhum momento conduz o espectador a uma viagem pela narrativa poética da lenda. Esse monstro fabuloso se transforma em uma sucuri que se envolve no corpo de uma atriz-dançarina e um signos verbais no monólogo final do ator Rui Guilherme. A conversão semiótica não acontece neste episódio pois os realizadores se mantiveram no campo da narrativa oral, não criaram a imagem cinematográfica da Cobra Grande como fizeram com o Boto, a Matinta, a Moça do Taxi e o caboclo Plácido.

O mito da Matinta Perera,apresentado no último episódio, foi representado outras duas vezes vezes no cinema paraense, além deste episódio de “Lendas Amazônicas”, no filme“Matintaperera” (2004) de Jorge Vidal e em “Matinta” (2012) de FernandoSegtowicki. Nos filmes de Jorge Vidal e Fernando Segtowicki a lenda é atualizada e relida. Em “Matintaperera” o plano de fundo é a violência daperiferia de Belém, o tráfico de drogas e a corrupção onde se envolve um jovem e sua família, já em “Matinta” a feitiçaria e a sedução são os encantamentos de uma jovem Matinta (Dira Paes) para conquistar um homem (Adriano Barroso). O filme de Fernando foi o que melhor compreendeu as possibilidades de cinema a partir destas narrativas mitológicas, com um roteiro que se desprende das amarras e cria seu enredo, cria sua matinta contemporânea no locus amazônico originário do mito.

“Os indígenas tinham a matinta como a visita de seus antepassados. Por encantamento alguém pode mudar-se em Matinta voar durante a noite, espalhando o pavor. Pela madrugada, volta aforma humana. Os paraenses a amazonenses de hoje apontam velhas como possuindo o cordão mudar-se em Matintas. Aparece de noite nas vilas, cidades,povoados, atravessando o espaço com seu grito arrepiante. Ouvindo seu grito os moradores prometem, em voz alta, fumo. Pela manhã uma velha mendiga aparece esmolando. É a matinta que vem cobrar a promessa. “ (Câmara Cascudo in LA)

Neste episódio de Lendas Amazônicas a mito-poética da Matinta Perara que tem origem na mitologiaTunpinambá, onde um pássaro era mensageiro dos mortos com uma imagem positiva efoi modifica pelo colonizador europeu tranformando em mal agouro e criando um paralelo com as bruxas e feiticeiras perseguidas pela inquisição da igreja católica, essas feiticeiras que eram aqui as curandeiras.

Figuras 7 e 8: Frames do filme Lendas Amazônicas – Matinta Perera, de Moisés Magalhães e Ronaldo Passarinho (1998).

Fonte: DVD do acervo do MIS-PA.

Segundo em depoimento do filósofo Benedito Nunes as lendas podem ser consideras mitos decaídos, a diferença está na função no conjunto da religiosidade de um povo. A partir da predominância da igreja católica na região amazônica essas narrativas foram apagadas ou transformadas na cidade grande, belém e arredores, e ficou restrita aos interiores onde a floresta e suas lendas ainda invadem o imaginário do povo.

O episódio “Marinta Perera” dofilme-série “Lendas Amazônicas” dramatiza alguns momentos com a intenção de levar o espectador a pactuar com as imagens que surgem com os relatos dos entrevistados e o discurso dos “especialistas”. Essas dramatizações recriam um universo imaginário amazônico que não existe mais para os habitantes da cidade,de casa de pau a pique, trilhas estreitas pela mata onde o caminha o caçador,onde a luz elétrica ainda não chegou e os mitos circulam livremente. Quase sem diálogos as dramatizações ilustram os depoimentos e a sequencia final, que é comum a todos os episódios, é um monólogo pra a câmera, para o espectador, e neste episódio é narrado pelo ator paraense Cacá Carvalho que conta um “causo”de Matinta Perera em uma casa de farinha.

            Concluindo,a série “Lendas amazônicas” é uma importante obra cinematográfica por aspectoscinematográficos, por algumas atuações, por ser obra de referencia até hoje, e única, que adaptou os mitos e lendas amazônicos para o cinema. Com pontos irregulares no roteiro como a opção narrativa dramatizada sem contextualização,os longos monólogos finais com características teatrais e de contação de estória sem muitos recursos cinematográficos. Dramatizar as lendas cenograficamente sem um referencial que conduza um pacto ficcional com a audiência, colocando na tela os mitos em suas versões realistas e sem profundidade.É um patrimônio audiovisual da nossa cinematografia e daquilo que somos, da nossa cultura amazônica profunda, apesar de todas limitações técnicas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 2007.

COMPAGNON, A. O Demônio da Teoria: literatura e senso comum [Trad. Cleonice Paes Barreto Mourão]. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1999.

DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário: introdução à arquetipologia geral. Lisboa: Ed. Presença, 1997.

LOUREIRO, João de Jesus Paes. Cultura amazônica: uma poética do imaginário. v.IV. São Paulo : Escrituras 2000.

MORIN, Edgar. O Cinema ou o Homem Imaginário. Trad. Antonio Pedro Vasconcelos. Lisboa: Moraes, 1970.

NICHOLS, Bill. Introdução ao Documentário. Campinas: Papirus, 2005.

REFERÊNCIAS AUDIOVISUAIS

LENDAS amazônicas. 1998. Episódios: O boto; Belém, mitos e mistérios; Matinta; Cobra grande. Direção: Moisés Magalhães e Ronaldo Passarinho Filho. Produtora: Amazoom Filmes. Produção Executiva: Moisés Magalhães. Co-produção: GNT. Roteiro: Ronaldo Passarinho, Lázaro Araújo. Música: Sebastião Tapajós. Direção de Fotografia: Jorge Monclair, Diógenes Leal. Som: Juarez Dagoberto. Montagem: Vera Freire. Coordenação de Produção: Márcia Macêdo. Cenografia: Jorge Trindade. Assistente de Direção: Rubens Shinkai. Assistente de Câmera: Adalberto Júnior. Trilha Sonora: Sebastião Tapajós. Elenco: Cacá Carvalho, Dira Paes, Nilza Maria, Walter Bandeira, Adriano Barroso. Depoimentos: Benedito Nunes, João de Jesus Paes Loureiro, Walcyr Monteiro, Maestro Isoca, Paulo Chaves Fernandes. Cor. Filmado em 16 mm.


[1] Cidadão nascido em Santarém (PA) na linguagem local.

FILME DO MÊS // ABR.2017 – “ENQUANTO CHOVE” DE ALBERTO BITAR E PAULO ALMEIDA

ENQUANTO CHOVE 2003, Belém, PA

Direção, Roteiro, Edição e Montagem: Alberto Bitar e Paulo Almeida
Produção: Maria Christina e Pékora Cereja
Designer de Som: Leo Bitar

Cor: Colorido, Formato: DV, Duração: 18min.

Elenco: Bob Menezes, Pékora Cereja, Adriano Barroso, Ailson Braga, Flavya Mutran, Silvana Saldanha, Jeferson Cecim, Abdias Pinheiro.

Enquanto Chove

Sinopse: 12 histórias que focalizam o cotidiano, que se interligam pela chuva e por acontecimentos fortuitos. Inspirado em livro homonimo, as histórias são marcadas pela sensualidade, pela a solidão e pela busca do amor. Música e imagens se fundem para criar uma atmosfera de caos e poesia.

Comentários: Inspirado no livro de contos «Enquanto chove» de Ailson Braga. Melhor Vídeo no 2o Festival de Belém do Cinema Brasileiro. Resultada da bolsa de criação artística do Instituto de Artes do Pará.

LANÇAMENTO DO DOC “PARADOXOS, PAIXOES E TERRAFIRME” de Adriano Barroso

LANÇAMENTO DO DOC PARADOXOS PAIXOES E TERRAFIRME – MACIEIRA FILMES.
DIA 26 DE OUTUBRO, NO CORAÇÃO DA T.F. (BREVE MAIS INFORMAÇÕES)

Roteiro e direção: Adriano barroso
Fotografia e montagem: Mario Costa.
Câmeras: Well Maciel, Marcelo Lelis, Marcelo souza.
Finalização de som: Leo Chermont.
Produção: Lidiane Martins, Betania Souza e Monalisa Paz.

Na celebração da semana santa, um grupo de artistas envolve a comunidade da Terra Firme para a apresentação de uma peça baseada no drama da paixão de cristo, pelas ruas da Terra Firme. O espetáculo faz parte das inúmeras ações do projeto do grupo Ribalta que ha 40 anos trabalha com teatro reunindo jovens em situação de risco, tirando-o das ruas, como um ato de cidadania.

FILME DO MÊS // OUT.2016 – CÍRIO, HISTÓRIAS DE FÉ


vlcsnap-2015-02-07-22h07m33s236vlcsnap-2015-02-07-22h07m58s2CÍRIO. Histórias de fé. Direção: Flávia Morete, Gustavo Godinho e Vlad Cunha. Produtora: Imageria Filmes. Produção executiva: Camila Kzan, Thais Vieira. Montagem: Marcos Kubota, Gustavo Godinho. Coordenação de produção: Theo Mesquita. Produção: Vanja Fonseca. Câmeras: Renato Chalú, Atini Pinheiro, Célio da Costa. Juracy Rabelo. Belém. 2007. 21 min.

Linha do Tempo: 60 Anos de Cinema Paraense

Nos últimos 60 anos, o cinema paraense realizou uma significativa produção audiovisual. Grande parte deste acervo, realizado de forma independente, superou adversidades para inserir imagens e sons na linha do tempo do cinema paraense. Com o objetivo de evidenciar essa produção, o professor e mestre em Artes da Universidade Federal do Pará (UFPA), Ramiro Quaresma, idealizou a exposição Linha do Tempo: 60 Anos de Cinema Paraense. O evento inicia-se no domingo, 12 de junho de 2016, na Galeria Elétrica, localizada na Rua Frutuoso Guimarães, bairro Campina.

Entre os artistas presentes neste grande recorte histórico, estão cineastas como Renato Tapajós, Vicente Cecim, Flávia Alfinito, Priscilla Brasil e Mateus Moura. Um dos objetivos da exposição é divulgar suas obras para que elas alcancem um público cada vez maior.

Duração – O evento é aberto ao público e, para participar, não é necessário realizar inscrições. Após o evento de domingo, a exposição ficará disponível até agosto. Para agendar visitação à exposição nos próximos meses, basta enviar um e-mail para cinematecaparaense@gmail.com.

Origem – A exposição Linha do tempo: 60 anos de cinema paraense tem como referência a pesquisa para a dissertação de Mestrado em Artes do Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGArtes) da UFPA, do professor e curador Ramiro Quaresma.

Seu trabalho foi desenvolvido com base em uma cartografia do cinema paraense e propõe uma possibilidade de preservação digital do patrimônio audiovisual, utilizando como plataforma o site-blog Cinemateca Paraense, criado há mais de sete anos.

 

 

Acervo – A curadoria e expografia da exibição foram realizadas por Ramiro Quaresma e pela museóloga e também idealizadora da exposição, Deyse Marinho. Entre mais de 300 filmes pesquisados e 25 realizadores entrevistados, a curadoria selecionou cerca de 60 filmes a serem exibidos para a compreensão da trajetória da produção cinematográfica paraense.

Cinemateca Paraense – Uma cinemateca é uma instituição que tem como objetivo preservar acervos audiovisuais, pesquisar a história do cinema do qual é guardião e difundir essas obras cinematográficas para que permaneçam vivas para as futuras gerações.

O site, criado em 2008, é um espaço democrático e colaborativo, sem qualquer fim lucrativo. Nele estão obras dos mais variados artistas paraenses, uma busca de um pequeno grupo de obstinados em pesquisar, catalogar e difundir os filmes que trazem em suas imagens e sons as memórias do Pará, preservando, assim, a história dos paraenses.

Serviço:
Exposição Linha do Tempo: 60 Anos de Cinema Paraense
Data: 12 de junho de 2016
Local: Galeria Elétrica, localizada na Rua Frutuoso Guimarães, 602 – Campina.
Horário: 10h às 20h
Mais informações:  Site Cinemateca Paraense, Evento no Facebook.
E-mail para agendar visitações: cinematecaparaense@gmail.com